Livro comentado por Drumond enfatiza memória dos poetas de pedra e argila

sexta-feira, 28 de agosto de 2009 |

No ano de 1980, Carlos Drummond de Andrade escreveu uma resenha sobre um livro que acabara de ser lançado: O reinado da Lua - escultores populares do Nordeste.

Nuca e a esposa Maria.
"A Lua reina sobre os artistas que nasceram artistas, não precisam academiar. A Lua os inspira e fataliza para a criação. Um deles se chama Louco, outro Maluco Filho, um terceito é Doidão. Mas todos operam sob a luz que vem da Lua ou que brota do interior deles mesmos", dizia. Todos esses personagens que o poeta citou são artistas nordestinos que contaram no livro os seus cotidianos, falaram da criação e de como se dava a circulação dos trabalhos. Depois de duas edições esgotadas, a obra comentada por Drummond será relançada hoje, às 17h, no Museu de Arte Popular, no Pátio de São Pedro, ao preço promocional de R$ 60.

"Não era um tratado sociológico. Passamos uns cinco anos viajando", conta uma das autoras, Flávia Martins. A mãe dela, Silvia Rodrigues Coimbra, que também escreveu o livro, tinha uma galeria de arte, a Nega Fulô, que funcionou até 1978.Maria Leticia Duarte, que estudou com Silvia no Rio de Janeiro, complementa o trio de escritoras.

Um dos artistas que contou a sua história nas páginas do livro é o Nhô Caboclo, que Silvia conheceu na antiga ponte giratória. Era lá que ele vendia as suas esculturas. Foi de Nhô Caboclo a declaração que acabou dando nome ao livro. "Disso você não entende não, isso é coisa do reinado da Lua". São do artista também alguns depoimentos espontâneos, curiosos, de gente que não precisa elaborar muito o pensamento para dizer quem é. "Peça tem de ser matuta: peça ruta que tem mais valor que a moderna. Estrangeiro é que dá valor a essas; Ele traz as peças modernas de lá pros brasileiros, que gostam muito só porque é de lá, mas os estrangeiros gostam de peça matuta, que tem história". O mercado de arte popular da época de Caboclo parece não ser muito diferente. "Temos que valorizar não só a produção simbólica, mas melhorar mesmo o preço da produção, para que os artistas tenham melhores condições", acrescenta Flávia.

O livro serve ao propósito de fazer um registro histórico. Ao falar de Tracunhaém, por exemplo, as autoras remontam um período que não existe mais. "Um telefone público mantem a comunicação com Recife. Não há carros particulares entre os moradores da zona urbana". Seu Nuca, famoso pelos leões, e que hoje vive em situação difícil ao lado da esposa Maria, também artista, era escultor há apenas três anos. Maria Amélia tinha 50 anos. Hoje se locomove com dificuldade, mas continua produzindo seus santos.

"Sabemos que a realidade é diferente. Mas é um registro, para que as pessoas que vão a Tracunhaém possam saber como era", explica. Um novo projeto seria realizar um percurso pelo Nordeste para conhecer quem são seus artistas agora. Poderíamos reescrever a opinião de Drummond: "Como não amar de amor enlevado esses homens supostamente rústicos, que têm tamanha capacidade de interpretar a vida, exercendo a imaginação e as mãos?".

Fonte: Diário de Pernambuco

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