Tem espetáculo? Tem sim, senhor!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009 |

Da editoria de Economia do Jornal do Commercio


A senhora tirou o vestido roxo tomara-que-caia do armário. Se maquiou e foi à praça. O seu companheiro passou a calça social e alvejou a camisa branca. Ensacou-a direitinho e foi também. Os alunos do 3º ano da escola que fica ao lado da Prefeitura foram liberados. “Só alguns”, explicou melhor uma das estudantes. Pais e mães com seus filhos no colo esperavam sob o sol das 11 horas da última sexta-feira, dia 21, o palanque montado em frente à sede do governo municipal de Timbaúba se encher. Era dia de festa e de muita, muita política. Apenas uma pequena parte dele foi reservada ao reerguimento econômico de uma cidade.
Depois de assistir ao polo calçadista ruir, a cidade de Timbaúba recebeu na última semana o anúncio de um empreendimento de R$ 57 milhões do grupo paulista Unimetal. A fábrica de fios de poliéster vai produzir 17 mil toneladas por ano e empregar 300 pessoas diretamente. Não tinha como evitar, o dia era de festa. Na marquise das casas próximas ao palanque, as pessoas colocaram cadeiras para ver de camarote o governador Eduardo Campos e o diretor-presidente da empresa, Cristophet Yung, assinarem o protocolo de intenções da fábrica. O motorista de ônibus parou no canto da padaria e também ficou a observar, enquanto um garoto engraxava seus sapatos.
Três bandas estudantis trataram de animar a festa. Tocando uma mistura de marchinha com Olodum, de sorrisos bem abertos, nem pareciam estar suando bicas ao bater os pratos e girar as baquetas dos tambores. Fogos de artifício deixaram o cheiro de pólvora no ar. O vendedor de churros não economizava no óleo e faturava alto. O vendedor de picolé e o de “cremosinho” também. Quando o calor e o abafado começaram a castigar, as senhoras abriram suas sombrinhas, cada uma mais colorida que a outra. Quando os discursos começaram, bateram palmas em cada parada estratégica que os oradores davam. Se não se animavam, uma senhora repreendia: “Vamo, anima minha gente!”.
O secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, Fernando Bezerra Coelho, ficou vermelho de tanto bradar que a fábrica “era fruto da luta política iniciada em 2006” de “Lula lá e Eduardo cá”. A deputada federal Ana Arraes era a mais celebrada. Lembrou o pai, o ex-governador Miguel Arraes, e arrancou mais palmas. No final ganhou um beijo na testa do filho, o atual governador de Pernambuco.
O presidente da Assembleia Legislativa, Guilherme Uchôa, também estava lá. Bom filho de Timbaúba que é, não poderia deixar de estar. E mandou o recado: “aqui não tem conversa fiada e nem mentira nesse palanque”. E haja palmas. Lembrou ainda a nova cadeia pública da cidade, que mesmo reformada ainda não começou a funcionar porque não tem policiais (na verdade essa última parte ele se esqueceu de dizer).
Foi quando chegou a vez do prefeito Marinaldo Rosendo. Chamou a deputada Ana Arraes de “nossa mãe”. E tome mais palmas. Ficou emocionado. Parou de falar. Tirou o lenço do bolso e enxugou as lágrimas. Tão rápido que não deu tempo de vê-las. “Esse é o maior presente da história”. “Estamos começando o crescimento da cidade”. Tome palmas.
Falou o governador também. Antes, revisou rapidamente seus cartões-lembrete. “Ouvi testemunhos de mães de família aqui na feira de Timbaúba de que era hora de barrar o processo de perde perde de Timbaúba”. “O presidente Lula foi zeloso nas atitudes que tinha de tomar no combate à crise”. Listou o que fez em educação, o que fez em segurança. Prometeu resolver o problema da cadeia pública. Palmas, palmas, palmas.
E a fábrica? Começará a ser construída, se aprovado o financiamento no Banco do Nordeste, em outubro. Mas Danilo, um jovem de 16 anos que abordou os repórteres que fizeram a cobertura do evento, retrata um pouco do que acontece quando a política passa por cima da economia. Aluno do 1º ano do Ensino Médio, conta com gosto que ganhou R$ 800 de candidatos a vereador nas últimas eleições só apresentando o seu título de eleitor e prometendo votar neles se esses dessem uma “ajudinha”. Quando questionado se não era melhor estudar e conseguir um emprego na fábrica que estava chegando, fez silêncio. Desconversou apontando para televisão que mostrava um show da banda Calcinha Preta.

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